Entrei como voluntário desta Associação em 1995, através dos colegas Isabel Catalão e Mário Maia, da Escola Superior de Educação de Lisboa. Era um dos seus "eurosésamis"! Sucederam-se os encontros com Robert Valette e toda a sua equipa de "eurosésamis" no contexto dos Fóruns Eurosesame: Blois (1995), Barcelona (1996), Paris (1997), Barcelona (1998), Bordeaux (1998), Milano (1998), Elvas (1999), Markdorf (1999), Paris (2000), Terni (2000).
De 20 a 25 de abril de 1999, Robert Valette esteve em Elvas, no nosso Agrupamento, a liderar um grupo de formadores "eurosésamis" oriundos de vários países da Europa, que dinamizou o estágio internacional “Formation mutuelle aux techniques de création et d’échanges multimédias”, realizado no âmbito do projeto europeu "Sésame du multimédia pour ouvrir les écoles à l'Europe" (Programa Socrates). Esta iniciativa pretendia incentivar os professores e os alunos a trabalhar em conjunto, aprender línguas através de projetos comuns e descobrir outras culturas de forma direta, e não apenas através dos manuais escolares. Na véspera do início do estágio visitou a EB1 da Boa-Fé, onde conquistou de imediato todos os alunos (e professores) com a sua personalidade cativante e as suas histórias inesquecíveis.
Mais tarde, coordenou também o projeto "Petit Prince en Eurolande", integrado no programa PRINCE (Programme d'Information du Citoyen Européen), destinado a aproximar os cidadãos da construção europeia mediante atividades educativas e intercâmbios entre escolas.
Valette defendia o uso das tecnologias como um instrumento ao serviço da abertura ao plurilinguismo, ao multiculturalismo e aos valores humanistas tradicionais da Europa, bem como a formação cívica dos jovens, assente nos princípios democráticos e nos direitos humanos.
A última vez que estive pessoalmente com Valette foi em 2013. Na companhia do "eurosésamie" Georges Labasse, visitei-o no seu estúdio, em Paris. Foi mais um encontro memorável, marcado pelo seu entusiasmo contagiante, pela abertura de pensamento e pela reflexão sobre os fundamentos identitários da Europa, que conhecia como poucos. O encontro foi regado a champanhe e "Pousse Rapiére" (um licor feito com Armagnac e laranja amarga), acompanhado de uns crepes que ele próprio preparou, símbolo da sua generosidade e hospitalidade.
Todos os anos, enquanto a saúde lho permitiu, enviava-me uma mensagem no dia 25 de abril, recordando que o seu ideal europeu estava muito próximo do espírito da revolução de Abril. A liberdade constrói-se pela educação, pelo diálogo entre culturas e por uma tecnologia sempre subordinada à dignidade da pessoa humana.
O seu pensamento continua muitíssimo atual! Num tempo marcado pela inteligência artificial, pelas redes sociais e pela sobrecarga de (des)informação, só uma educação orientada por valores humanistas (respeito pelas pessoas, diálogo entre culturas, colaboração e abertura aos outros) pode permitir que as tecnologias se tornem verdadeiros instrumentos de construção europeia.
Nós, os "eurosésamis", estamos muito tristes e mais pobres com a sua ausência, mas cabe-nos a nós continuar a manter vivo o seu legado: servir-nos da "língua de Esopo" com a lucidez e o humanismo que ele nos ensinou!
José Luís Carvalho
Professor do 1º Ciclo
"Eurosésamie"


